quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Navegar é preciso

Planeta conturbado e agitado.
Todos querem dinheiro, mais sucesso, o mundo inteiro.
Além de todos os pré-conceitos,
Conceitos
E Devaneios
Tudo se descarta, sufoca, entorta.
Eu tento.
Mas quanto mais eu penso,
Menos entendo.
Quero um lugar que me traga paz
Sentir o melhor que a solidão me trás.
Chega de querer entender
Eu preciso viver.
Sinto-me olhando um céu azul de nuvens retalhadas.
Pego no sono e sonho com borboletas atordoadas.
Eu sou o contento,
O silêncio
E o tempo.
Sempre que acordo,
Uma voz surge com o vento:
Ei, navegar é preciso.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Voltas

Tudo é passageiro,
Assim como o vento.
Assim como o vento,
Tudo é passageiro.
O tempo,
O sentimento
E o pensamento.
Tudo é fugaz,
Capaz,
Vivaz.
Só não olhe nunca para trás.
Só não olhe nunca para trás,
Tudo é fugaz.
Pensamentos em movimento
Não encontro um contento
E nada me trás um alento.
Eu vejo tudo girar
E quanto mais tento parar
Mais me vejo rodar.
Minha vida é assim,
Um parque,
Um jardim.
Uma junção de rodas gigantes, carrosséis e cata-ventos.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Cata-vento ao contrário

Vou me curtir assim
Até não sobrar mais forças.
Até eu não conseguir mais pensar.
Até que nada disso faça mais sentido algum.
O cata-vento vai virar
E o vento há de me ajudar.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Carta de Alforria

Durante alguns dias, pude ver e sentir coisas que já há algum tempo não sentia.

Engraçado como o tempo passa em um piscar de olhos quando a vida que está em volta deseja realmente ser vivida.

Posso dizer que eu pisquei, vivi e despertei.

Despertei para a minha liberdade.

Minha ânsia de viver momentos bons e conhecer pessoas novas.

Minha necessidade de sorrir e receber outro sorriso em troca, sem precisar desejar e esperar.

Por algum estranho momento, eu decidi ser o que não fui até hoje e, ao contrário do que antes eu pensava, essa decisão me trouxe um sentimento estranho de estar completamente certa. E completa.

Foi um sentimento que me absorveu por inteira, me fazendo flutuar.

Hoje me sinto leve, mas com força.

Uma força que vem de dentro da alma e me faz querer continuar.

Me faz sonhar.

Foi uma única semana, diferente de todas as outras que já tive, que me tirou de dentro de um lugar em que eu já não queria mais estar.


Sou livre.

domingo, 30 de outubro de 2011

Mudanças

Meu momento de auto conhecimento me inspira, e cada vez mais eu me sinto em sincronia com o vento.
As diferentes faces que a vida pode ter, fascinam, e eu tenho fome de saber o que pode me acontecer, toda vez que eu abro os olhos de manhã e tenho um sorriso misterioso tomando conta de mim.
Eu mudo, tu mudas, nós mudamos.
Como passei a gostar de tudo isso!
Meu ano decidiu ser conturbado e eu já não quero mais ir contra a maré.
Aceito a mudança em mim como aceito que a chuva lá fora me molhe.
Mudanças, sejam bem vindas!

sábado, 29 de outubro de 2011

O silêncio que sai do som da chuva espalha-se, num crescendo de monotonia cinzenta, pela rua estreita que fito. Estou dormindo desperto, de pé contra a vidraça, a que me encosto como a tudo. Procuro em mim que sensações são as que tenho perante este cair esfiado de água sombriamente luminosa que [se] destaca das fachadas sujas e, ainda mais, das janelas abertas. E não sei o que sinto, não sei o que quero sentir, não sei o que penso nem o que sou.

Toda a amargura retardada da minha vida despe, aos meus olhos sem sensação, o traje de alegria natural de que usa nos acasos prolongados de todos os dias. Verifico que, tantas vezes alegre, tantas vezes contente, estou sempre triste. E o que em mim verifica isto está por detrás de mim, como que se debruça sobre o meu encostado à janela, e, por sobre os meus ombros, ou até a minha cabeça, fita, com olhos mais íntimos que os meus, a chuva lenta, um pouco ondulada já, que filigrana de movimento o ar pardo e mau.

Abandonar todos os deveres, ainda os que nos não exigem, repudiar todos os lares, ainda os que não foram nossos, viver do impreciso e do vestígio, entre grandes púrpuras de loucura, e rendas falsas de majestades sonhadas… Ser qualquer coisa que não sinta o pesar de chuva externa, nem a mágoa da vacuidade íntima… Errar sem alma nem pensamento, sensação sem si-mesma, por estrada contornando montanhas, por vales sumidos entre encostas íngremes, longínquo, imerso e fatal…

Perder-se entre paisagens como quadros. Não-ser a longe e cores…

Um sopro leve de vento, que por detrás da janela não sinto, rasga em desnivelamentos aéreos a queda retilínea da chuva. Clareia qualquer parte do céu que não vejo. Noto-o porque, por detrás dos vidros meio-limpos da janela fronteira, já vejo vagamente o calendário na parede lá dentro, que até agora não via.

Esqueço. Não vejo, sem pensar.

Cessa a chuva, e dela fica, um momento, uma poalha de diamantes mínimos, como se, no alto, qualquer coisa como uma grande toalha se sacudisse azulmente dessas migalhinhas. Sente-se que parte do céu está já aberta. Vê-se, através da janela fronteira, o calendário mais nitidamente. Tem uma cara de mulher, e o resto é fácil porque o reconheço, e a pasta dentífrica é a mais conhecida de todas.

Mas em que pensava eu antes de me perder a ver? Não sei. Vontade? Esforço? Vida? Com um grande avanço de luz sente-se que o céu é já quase todo azul. Mas não há sossego — ah, nem o haverá nunca! — no fundo do meu coração, poço velho ao fim da quinta vendida, memória de infância fechada a pó no sótão da casa alheia. Não há sossego — e, ai de mim!, nem sequer há desejo de o ter.

(Fernando Pessoa)

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Perca-se

Eu, que fui sempre confusa, me deparei com o certo.
Eu, que mergulhava em dúvidas, obtive respostas.
Eu, que finalmente me encontrei, acabei por perder o que me encontrou.
Que, por ironia do destino, se perdeu de mim e nunca mais voltou.
E, por não saber mais o que fazer,
eu, hoje, desejo de novo me perder.